• Verónica Rivas

Kurukulla. A deusa irada de Uddiyana

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Entre montanhas inóspitas, no fundo de antigas cavernas, habita uma antiga divindade tribal de aspecto feroz e cativante. Ela estava ligada à fertilidade e questões agrícolas, mas, com sua chegada em sociedades mais complexas, ela passou a ser regente de atividades como exorcismos, subjugação, sexualidade, magia de amor e bruxaria. A sua vinculação com subjugação e sexualidade não se perdeu com a sua progressiva introdução ao panteão budista. Ela é conhecida como Kurukulla, “aquela que é a causa do conhecimento”. Dentre os textos ritualísticos mais importantes dedicados a esta divindade podemos encontrar el Aryatarakurukullakalpa, el Hevajra Tantra e outras sadhanas (textos ritualísticos) como a de Dudjom Rinpoche, entre outras. Também, na coleção de textos ritualísticos (sadhanas) conhecida como Sadhanamala, aonde se encontram rituais dedicados a diversas divindades, podem ser encontrados vários rituais dedicados a diferentes manifestações da deusa Kurukulla.


Dentre as diversas manifestações de Kurukulla que encontramos no Sadhanamala podemos destacar as seguintes: Astabhuja Kurukulla, Uddiyana Kurukulla, Tarodbhava Kurukulla, Mayajalakrama Kurukulla, entre outras. Algumas destas manifestações são iradas e outras semi-iradas. E com respeito à cor, se bem que a cor característica de Kurukulla é o vermelho, existem algumas manifestações que aparecem na cor branca e também rosa; mas estas manifestações são menos comuns. Aqui é importante destacar que a cor mais representativa de Kurukulla é o vermelho e o motivo disto atende a várias causas, sendo uma delas que o vermelho está associado à subjugação e ao magnetismo, que são as atividades mais associadas à deusa.




Kurukulla. Hevajra Tantra. (Tibet, 1800-1899)


O Āryatārākurukullākalpa é um texto que contém muitas praticas ritualísticas dedicadas à Kurukulla na sua manifestação como Tarodbhava Kurukulla. O texto é dividido em diferentes capítulos e neles podemos encontrar desde rituais de subjugação até rituais de cura, sobretudo cura dedicada aos órgãos femininos. Também se descreve como usar ou criar certas substâncias para serem usadas no contexto ritualístico. Aqui neste texto também se descrevem diferentes mantras, alguns deles extensos, para serem aplicados em contextos bem específicos e que carregam uma força tal que o autor do texto recomenda ter muita cautela e preparação ao serem usados. Aqui Kurukulla emerge da silaba HRIH, está sentada sobre uma flor de lotus e o mantra que se emprega aqui, de forma geral para realização da deidade, é Om Kurukulla hrih hum svaha, o qual se considera que é a própria essência da deusa.


O Hevajra Tantra foi um dos primeiros tantras budistas a ser traduzido em língua ocidental. O estudioso Daniel Snellgrove que, em 1959, publicou uma tradução deste tratado chamado The Hevajra Tantra: A Critical Study, considera que este texto poderia ter sido escrito no século VIII, mas outros estudiosos afirmam que este texto teve sua origem entre os séculos IX e X. Neste texto, nossa deusa é considerada uma emanação de Hevajra (uma divindade irada, um protetor que é considerado uns dos mais importantes yidam (1) dentro do Budismo esotérico). Kurukulla é descrita aqui na cor vermelha, com quatro braços, e o mantra dado é Om kurukulle hrih svaha. Está relacionada às atividades de encantamentos, subjugação e práticas mágicas.


Desde tempos antigos, montanhas, cavernas, encruzilhadas e cemitérios são possivelmente os lugares mais assustadores, mas também eles estão fortemente relacionados com a espiritualidade e com a obtenção de realizações supremas. Representam também obstáculos, momentos de decisões difíceis que nos colocam frente a fatos que costumamos querer evitar: a decadência e a morte. Mas, como lugares liminares, são também elos com as fontes de energia primordial de onde nossa própria existência emerge constantemente. Eles fazem parte de uma concepção cosmológica em que a morte e a vida são apenas aspectos diferentes de uma realidade única. Kurukulla, por estar associada a este tipo de lugares, carrega na sua iconografia e na sua manifestação estes elementos, os quais também se refletem na prática, durante os processos de geração e realização da deidade.


Como Kurukulla aparece por causa de muitos tipos de experiências e interpretações da realidade que poderiam ser classificadas como tântricas, se quisermos entender seu papel como yidam ou como dakini (2) em um caminho espiritual, devemos tentar elucidar o que significa Tantra. A tarefa de definir o Tantra é muito difícil porque o Tantra alude a uma filosofia prática fluente e ativa, que expressa que somos um microcosmo emergindo de um macrocosmo, mas nossa mente está nublada pela ilusão de separação. Na perspectiva tântrica, a realidade é a maneira como nossa mente reage aos eventos cotidianos e, neste novo contexto, Kurukulla passou a representar a fonte de todas as nossas experiências, ela é também a forma como interpretamos essa experiência e ao mesmo tempo é a fonte da transcendência.


Não é objetivo deste trabalho realizar uma análise profunda da história e da evolução do Tantra, mas apenas fornecer um pano de fundo para situar a prática do Kurukulla. Historicamente, alguns pesquisadores acreditam que o primeiro tratado que pode ser considerado tântrico data do século I AC. Alguns estudiosos apontam que a origem do Tantra pode ser rastreada até a Civilização do Vale do Indo, mas as evidências arqueológicas e históricas ainda não são suficientes para provar isto. O que parece claro é que, no início, a palavra tantra estava relacionada a certos tipos de tratados, textos que revelam métodos específicos para se obter a liberação. Esse tipo de texto mostra uma maneira de abordar certas divindades para obter resultados específicos. De acordo com algumas interpretações, a palavra tantra” não apenas alude aos tratados, mas também ao método exposto no tratado.


Segundo Herbert Guenter, a palavra tantra foi introduzida na língua inglesa em 1799 em referência a certos tratados e práticas descobertos por missionários católicos na Índia. Essas práticas e filosofias eram consideradas imorais e depravadas, contra os códigos morais e como um conjunto de práticas degeneradas e sem valor espiritual. Os missionários testemunharam práticas e encontraram tratados que falavam sobre formas "especiais" de realização do ato sexual, sacrifícios rituais e o uso de fluidos como sangue menstrual, sêmen, sangue de partes específicas do corpo, entre outros, que eram usados como oferendas para o que os missionários consideravam divindades selvagens.


Como dissemos antes, é difícil pensar em uma definição geral do Tantra porque ele passou por um importante processo de expansão e evolução desde suas origens. Apesar disso, o Tantra parece ser uma filosofia prática que surgiu na Índia, e para muitos mais precisamente em Bengala, com muitas características que mudaram quando chegou ao Tibete, por exemplo. Mas, por que podemos chamar de Tantra a movimentos aparentemente tão diversos? Qual é a característica interna do Tantra? Para nos aproximarmos disso, devemos falar sobre continuidade e propósito.


Antes de tentar chegar mais perto de uma definição de Tantra, seria útil prestar atenção a duas expressões relacionadas ao Tantra, desde que apareceu no Ocidente: "esquerda" em oposição a "direita". Por causa da imagem do Tantra dada pelos missionários cristãos e pelos seguidores das tradições Brahamanicas, alguns estudiosos e praticantes, na tentativa de dar uma imagem melhor do Tantra, passaram a diferenciar as práticas que eram consideradas transgressoras daquelas que tinham um foco mais especulativo. Desse modo, o termo "tantra de direita" refere-se a uma espécie de abordagem e pensamento filosófico sobre os tratados tântricos que buscam romper com as próprias práticas, que eram consideradas transgressivas, relacionadas às formas selvagens de adoração a certo tipo de divindades. Essas práticas tinham um forte componente sexual e erótico associado a muitos tipos de oferendas, assim como também a sacrifícios ritualísticos. Praticantes ocidentais influentes como Helena Blavatsky (1831-1891), fundadora da Sociedade Teosófica, catalogaram práticas com o componente descrito anteriormente como Magia Negra, sendo consideradas selvagens e depravadas, e as classificaram como “caminho de esquerda”. Mas algo que pessoas como Blavatsky parecem não ter em conta é que o Tantra é em si um caminho prático e não apenas uma abordagem filosófica. Se em um contexto ritual negarmos a prática da união, por exemplo, ela não pode ser considerada tântrica: uma mera especulação não é Tantra de forma alguma.


A palavra "tantra" em sua raiz alude a algo que tem continuidade, como uma espécie de rede que está sempre sendo tecida e em constante crescimento. Podemos analisar o fato da continuidade por meio de dois aspectos: continuidade relacionada à forma como as práticas são realizadas e continuidade relacionada ao tempo, aludindo à forma de transmissão e à importância da relação entre mestre e discípulo. É o que chamamos de linhagem. Quando falamos em continuidade relacionada às próprias práticas, podemos dizer que, em geral, uma prática tântrica possui duas partes bem diferenciadas: geração e conclusão. São momentos inter-relacionados e um não existe sem o outro. Para atingir a conclusão, devemos nos concentrar na geração. Geração são as práticas preliminares que têm o objetivo de preparar nosso corpo / mente para experimentar diferentes e novos níveis de energia e percepções. São também uma espécie de limpeza progressiva e profunda com o propósito de perceber as diferentes manifestações da divindade até mesmo em nosso próprio corpo. E isso ocorre porque o Tantra é um caminho prático no qual as ferramentas mais importantes são nosso próprio corpo e nossa própria percepção da realidade.


Uma vez que nos tornamos um com o que a divindade representa, e somos capazes de invocar sua presença sem rituais ou ferramentas específicas, alcançamos a conclusão. Mas quando podemos ir além de nossa própria compreensão da divindade e além de todas as manifestações ou características físicas, alcançamos o nível mais alto de conclusão. E este é o objetivo final de qualquer caminho tântrico. O aspecto da continuidade tem seu fundamento no fato de que um caminho tântrico deve contar com iniciações passadas de mestre para discípulo em uma linha interrompida. O tantra é um caminho iniciático. A iniciação é dada por um professor ou praticante de alto nível, mas o grande objetivo é a iniciação recebida diretamente da divindade, chamada neste caso de yidam. O caminho Vajrayana é um exemplo disso, onde a primeira parte chamada Ngondro é composta por práticas dadas pelo Lama através de processos de iniciação e a segunda parte corresponde ao Dzogchen onde o contato direto com o yidam e outras divindades deve ser estabelecido.


Mas o Tantra também pode ser o caminho do praticante solitário, baseado no estudo e no contato direto com as divindades - é também uma questão de propósito. Portanto, neste caso, Tantra se refere à maneira pela qual a realização espiritual é alcançada. Tantra refere-se à crença de que tudo emerge de uma fonte primordial, não gerada e que por meio de certas práticas essa fonte pode ser acessada para produzir uma união completa. O propósito de todo caminho tântrico é sempre o mesmo: a união completa, a dissolução do eu, com base no fato de que esse propósito não é algo a ser obtido, mas algo a descobrir e atingir. Algo que existe na nossa vida quotidiana, a cada segundo da nossa existência, mas, pela forma como funciona a nossa mente, não somos capazes de o perceber. Portanto, o Tantra é o caminho, mas também é o método.


Outra ideia importante dentro da tradição tântrica é a divinização de toda a existência. O mundo é considerado um ser divino pulsante, essencialmente feminino, e tudo o que nos rodeia são apenas manifestações desta divindade. Por isso, o praticante tântrico reproduz ritualisticamente a geração de seu corpo como ser divino, em união com a divindade escolhida. Por exemplo, em certo nível, trabalhar com Kurukulla significa divinizar sentimentos e emoções de ira, luxúria e desejo e sua transmutação em sabedoria intrínseca. Aqui, queremos dizer divinização como um processo em que o corpo é usado como uma ferramenta ritualística divina para atingir a liberação.


David Gordon White, em sua tentativa de definir o Tantra, diz:


Tantra é aquele corpo asiático de crenças e práticas que, trabalhando a partir do princípio de que o universo que experimentamos nada mais é do que a manifestação concreta da energia divina da divindade que cria e mantém esse universo, busca-se ritualisticamente canalizar essa energia, dentro do microcosmo humano, de maneiras criativas e emancipatórias. (Gordon White, 2000: 9)

Mas, como o autor diz em seu trabalho, esta é apenas uma "definição de trabalho" que poderia ser considerada incompleta e até mesmo rejeitada por alguns estudiosos. É importante considerar que o Tantra não é um corpo unificado de crenças e práticas e que sua terminologia varia dos praticantes hindus aos tibetanos. Por exemplo, a escola Vajrayana mudaria a expressão "energia divina" por "consciência iluminada". Esta escola também dá ênfase ao "estado de espírito intrínseco vajra", que significa a concepção da mente como um diamante que pode ser lapidado através de práticas ritualísticas específicas usando mandalas, yantras e, principalmente, a recitação de mantras. Por isso é importante quando falamos de Tantra especificar, pelo menos, se nos referimos ao Tantra Hindu ou ao Tantra Budista, já que existem diferenças entre eles. Também podemos dizer que o Tantra é um caminho de cura. Geralmente, temos um elo rompido entre a maneira como o mundo físico aparece para nós e a maneira como acreditamos que deveria ser. Não há nada desconhecido para descobrir, trata-se de perceber o conhecido. O Visvasara Tantra expressa algo como: "o que está aqui, está em outro lugar e o que não está aqui, não está em lugar nenhum". Tantra também é uma espécie de síntese de matéria e espírito e não é um caminho de renúncia, mas um caminho de aceitação de nossa própria humanidade e condições, desejos e sentimentos.


Kurukulla na terra Uddiyana


Algumas fontes referem-se a Kurukulla como Tara Vermelha Kurukulla, significando algo assim como “aquela que emerge de Tara”. Nesse caso, eles estão dando a Tara certas características de Kurukulla ou assimilando ambas divindades para facilitar a introdução das divindades em um novo panteão. Em outros, Kurukulla é considerada uma dakini totalmente iluminada da terra de Uddiyana, o que lhe confere características especiais e muito específicas. As dakinis de Uddiyana são de aparência colérica e feroz e as cores associadas a elas são geralmente vermelhas e pretas. Elas são complicadas, selvagens e perigosas. Elas representam a sabedoria primordial na manifestação mais elementar, e geralmente são representadas usando guirlandas de caveiras, saias de pele de tigre, segurando potes com sangue menstrual e em posturas dançantes eróticas. Algumas delas estão paradas em cima de um cadáver ou de um casal mantendo relações sexuais, e mostram uma cabeça decapitada em uma das mãos.


Outras fontes apontam que Kurukulla tem sua origem como uma divindade local de pequenas aldeias ou entre povos nômades. Muitos estudiosos acreditam que a maioria das divindades que hoje são adoradas como sendo relacionadas à sexualidade ou à morte eram divindades antigas relacionadas à fertilidade, à terra e à vegetação. Kurukulla poderia ser um exemplo disso, tendo sua origem como um espírito protetor da vegetação e dos animais, que passou por um processo de evolução tornando-a uma divindade da fertilidade com atributos lunares. Ela era adorada como uma yaksini. Os yaksas e yaksinis eram considerados divindades tribais relacionadas com a agricultura, e são exemplos das formas mais primitivas de culto nas terras do Himalaia. Na entrada dos templos podem ser apreciadas imagens de yaksinis como protetoras do lugar. Elas são representadas como mulheres de quadril largo, muito sensuais e erotizadas, representando a energia lunar assim como a maternidade, a fertilidade e a abundância.



Yaksinis, Século II D.C. (Indian Museum, Calcutta)


Estas divindades tribais eram espíritos venerados, mas também temidos. Elas representavam a selvageria e as forças naturais, o que não podemos domar ou desafiar. Com o tempo, essas divindades se transformaram em divindades ctônicas regentes sobre a morte e a sexualidade. Algo importante a se notar é que geralmente, em muitas culturas, divindades relacionadas com sexualidade e fertilidade também estão relacionadas à morte e aos espíritos que não descansam. Podemos observar essa característica entre os deuses de outras culturas, como a mesoamericana, onde Tlazolteotl por exemplo, é uma deusa da sexualidade, sensualidade e luxúria, mas também uma deusa relacionada à morte e calamidades que mora no Submundo.


Muitas fontes ligam Kurukulla a Uddiyana, não apenas aquelas que a caracterizam como uma dakini, mas também aquelas que a retratam como divindade. De acordo com muitas fontes budistas, Uddiyana ou Oddiyana é um lugar muito especial. Diz-se que o grande iogue conhecido como Guru Padmansambhava, o grande mestre da escola Vajrayana do Budismo Tibetano, atingiu todas as suas realizações em Uddiyana. Muitos textos, quando fazem referência a este importante iogue, o chamam de “Aquele que veio de Uddiyana”, “o Mestre de Uddiyana” ou “o Filho de Uddiyana”. Alguns tantras budistas também se referem a Uddiyana como Orgien ou Urgyen, e muitos estudiosos apontam que todos esses nomes são referências ao mesmo lugar: uma espécie de terra mística, a residência de seres de grande conhecimento e sabedoria e que pode ser considerada uma terra pura. As estórias que ligam Padmansambhava a Uddiyana são muito importantes porque nos dão um bom espectro dos tipos de práticas, energias e espíritos associados a este lugar, que também é a morada de divindades como Kurukulla.


Considerando fontes budistas e não budistas, podemos observar muitas discrepâncias sobre a vida de Padmansambhava, mas também muitos pontos em comum. Ele foi um grande estudioso de vários tipos de artes mágicas, bem como de diferentes escolas filosóficas e iniciáticas. Foi considerado como sendo um mago e um necromante, tendo recebido iniciações em bosques, cavernas, cemitérios e montanhas inóspitas. Muitas dessas iniciações foram dadas diretamente pelas divindades de Uddiyana. Alguns estudiosos acreditam que, de fato, os aspectos budistas que hoje estão associados a Padmansambhava foram introduzidos de forma posterior e não na época na que parece haver vivido. Esses autores apontam que ele era apenas um mestre tântrico que aprendeu e atingiu a compreensão plena da realidade última, a lei mística que permeia tudo. Padmansambhava também era um habilidoso invocador e subjugador de todo tipo de espíritos usando elementos tântricos como mantras, mandalas, yantras, sigilos e também armas mágicas como dorjes, adagas, phurbas, arcos, sinos e diferentes tipos de tambores. Sua atividade iluminada pode ser considerada não como algo que confronta e aniquila, mas como algo que subjuga e transforma. Ele não estava tentando evitar ou eliminar a luxúria, raiva, inveja ou ira, mas usá-las como fontes de sabedoria iluminada. E esta é a principal característica da forma como Kurukulla também exerce sua atividade.


Em uma das biografias de Padmansambhava lemos:


Com o grande mestre Thousand Tantras Great Magician, ele aprendeu magia colérica e viagens rápidas milagrosas e treinou para se tornar um tradutor de vinte e um idiomas. Na terra dos oito cemitérios de Oddiyana, Ele se manifestou como as oito classes de guerreiros espirituais, os grandes ging, fez votos a deuses e demônios canibais e conduziu festas vajra. (Zangpo, 2002: 193)

Outra menção que relaciona Padmansambhava a Uddiyana e que destaca a característica especial deste lugar é dada por Yeshe Tsogyal (3) quando ela expressa de várias maneiras que seu Mestre não está morto, mas acaba de se retirar para Uddiyana, a terra das dakinis. Uddiyana parece ser o lugar onde muitos ensinamentos tântricos se originaram, e de acordo com fontes budistas, Uddiyana é o lugar onde os ensinamentos Dzogchen foram originados também. A direção atribuída a Uddiyana é o oeste, bem como a de Kurukulla. Não temos evidências claras e fortes de onde Uddiyana estava exatamente situada. As fontes mais precisas a situam no Vale Swat, em uma área chamada Udyan, de onde provavelmente deriva o nome Uddiyana. De acordo com alguns estudiosos, este lugar mítico estava situado no atual Paquistão e, para outros, no sul da Índia. É um local descrito como cheio de montanhas e cavernas rodeadas por lagos. Uddiyana também está ligada à história de uma prostituta chamada Soukadhari que obteve grandes realizações místicas e mágicas nesta terra. Essa história também está ligada a Kurukulla como sendo a fonte de todas as conquistas que a mulher alcançou, mas, infelizmente, só temos apenas algumas menções sobre isto.


Kurukulla a yidam .... Kurukulla a dakini


Kurukulla emerge da sílaba "HRIH" que mostra suas qualidades e natureza totalmente iluminadas. Sua fonte é a consciência primitiva e o que ela concede não pode ser enfraquecido ou destruído. Ela manifesta seu poder por meio da sedução e do amor selvagem e sua atividade iluminada transforma todo desejo em sabedoria. Ela é a personificação da energia primordial, e ser um praticante de Kurukulla é atingir o poder de se tornar um com o que ela é e representa. Talvez as palavras de uma praticante tântrica da Idade Média, registradas em um tratado anônimo, pudessem definir o que realmente significa o caminho de Kurukulla:


Atividades que são graciosas, heróicas, aterrorizantes, compassivas, furiosas e pacíficas. E paixão, raiva, ganância, orgulho e inveja ... todas essas coisas, sem exceção, são as formas perfeitas de sabedoria pura e iluminadora. (Shaw, 1995: 28)


Sílaba "HRIH"


Uma yidam é a divindade que corresponde aos nossos desejos e aspirações. É a divindade com a qual sentimos uma forte conexão. Ela representa nossa mente em todas as manifestações e também representa todas as nossas fraquezas e medos. Por esta razão, Kurukulla é a personificação da yidam e pode se manifestar dessa forma. Mas ela também é a unidade do vazio e a sabedoria, ela é a detentora do conhecimento intrínseco. Ela viaja pelos diferentes reinos e dança com ilusões, e por isso ela também é a dakini. Kurukulla é também considerada uma dakini Padma da direção oeste, da terra de Uddiyana.


Há uma história em que uma rainha ficou muito preocupada por ter perdido o afeto e a atenção do marido e pediu ajuda a uma de suas donzelas. A donzela dirigiu-se ao mercado da aldeia onde se podia facilmente encontrar certo tipos de mulheres conhecidas como “feiticeiras vermelhas”. Ela encontrou uma dessas mulheres, explicou-lhe o problema e a feiticeira deu-lhe uma comida para ser dada ao rei. Ela havia empoderado a comida com certos mantras. Mas a rainha teve medo e se recusou a dar a comida ao marido e jogou-a em um lago próximo. Um Rei Naga comeu a comida e, pelo poder dos mantras, procurou a rainha e entrou em seu quarto. Imediatamente arderam de paixão uma pelo outro, tiveram relações sexuais e a rainha ficou grávida. Os mantras usados ​​para o empoderamento eram mantras relacionados a Kurukulla e a mulher do mercado era uma feiticeira de Kurukulla. Quando o rei soube da gravidez da rainha, sabia perfeitamente que o filho não era dele, e tendo ouvido a história, mandou buscar pela “feiticeira vermelha”. A história termina com o rei curvando-se diante da mulher e estabelecendo o culto a Kurukulla na sua corte.


De acordo com essa história, Kurukulla era uma divindade relacionada ao amor, paixão, fertilidade e atração. Suas feiticeiras costumavam realizar rituais de amor, riqueza e para qualquer tipo de assunto feminino. Mas muitos textos anônimos nos falam sobre rituais que eram considerados como magia negra. Esses rituais incluíam banimento, subjugação, exorcismo e rituais para causar destruição ou até mesmo matar uma pessoa. Por meio dessa história, também podemos ver o poder de transmutação da divindade para transformar uma situação adversa em uma bem-sucedida. Muitos rituais vinculam Kurukulla a assuntos mundanos como obter dinheiro, reconhecimento, amor, entre outros, mas quando ela entrou no panteão budista, outra característica começou a ser acrescentada e muitas das anteriores começaram a ser deixadas de lado. A estudiosa Miranda Shaw diz que desde que Kurukulla foi introduzida no panteão budista, ela passou por um processo de evolução. Esse processo de evolução pode ser observado não apenas na natureza das tarefas associadas a ela, mas também em sua importância entre o vasto número de divindades do panteão budista. Como diz a autora, ela foi apresentada como uma deusa que presidia rituais de magia de amor e encantamento, mas ela adquiriu progressivamente a função de ser a causa e fonte de sabedoria.


Shaw descreve Kurukulla da seguinte maneira:


Seu corpo voluptuoso é brilhante, vermelho brilhante, a tonalidade da paixão e do desejo amoroso. Cintilando com um brilho rubi, dona da arte da sedução, Kurukulla exibe as ferramentas de sua arte mágica: o arco e flecha floridos com os quais ela perfura os corações daqueles que ela encantaria, o laço com o qual ela os amarra e o aguilhão de elefante com o qual ela os atrai para sua esfera de liberação. O armamento de Kurukulla é adornado com flores de lótus vermelhas que enviam enxames de ferozes abelhas vermelhas. Os alvos de sua magia não sentem sofrimento. Eles estão intoxicados pela fragrância dos lótus, hipnotizados pelo zumbido das abelhas e confusos pelas nuvens carmesim do êxtase. (Shaw, 2015: 432)

Durante o processo de introdução de Kurukulla nas práticas budistas ela foi associada à Deusa Tara, como uma manifestação vermelha desta deusa, e nesta manifestação ela é conhecida como Tara Vermelha Kurukulla, como mencionamos anteriormente. Ela é uma manifestação irada ou semi-irada de Tara e, por causa dessa associação com Tara, ela passou a ser considerada como uma mãe, como uma yidam. Mas o Tibete também tinha fortes tradições de rituais de encantamento, subjugação e bruxaria e, por isso, nossa deusa não perdeu suas atribuições originais.


Red Tara (Kurukulla) é a Deusa da Riqueza cujo mantra, se repetido 10.000 vezes, irá realizar todos os desejos de uma pessoa. Ela vai enfeitiçar os corações de homens e mulheres e é adorada por amantes infelizes. Vermelho é a cor do amor na Índia e, portanto, é a cor de sua pele, roupas, lótus e coroa. Sua expressão é feroz, e ela é freqüentemente retratada dançando sobre o demônio Rahu. Ela usa uma guirlanda de cabeças e uma caveira pode ser encontrada em sua coroa. Dois de seus quatro braços puxam o arco e a flecha. (Blumenberg, 1996: 69)

Mas a escola Mahayana do Budismo, que tem um forte elemento tântrico e, ainda mais, o Budismo esotérico conhecido como Vajrayana, não veem os assuntos mundanos como algo que deve ser negado, mas algo a ser assimilado e transmutado. Por este motivo, a iconografia exibida nas representações de Kurukulla foi mantida e reinterpretada de uma maneira diferente. Para o propósito da prática, ela é simbolicamente representada da seguinte forma: seu aspecto bruto é representado por sua imagem, sua forma sutil é seu yantra e sua forma suprema é seu mantra. Todos esses aspectos fazem parte do processo de geração da deusa. É ela quem seduz, quem chama a atenção com sua volúpia e beleza irresistível. Mas ela também é perigosa e selvagem, e seus métodos nem sempre são fáceis e diretos, eles exigem de nós muita atenção, coragem e clareza de espírito.



Yantra de Kurukulla


Lemos sobre sua representação mais conhecida:


Kurukulla é uma das formas de Vajrayogini (4), que magnetiza especialmente a paixão e a transforma em sabedoria. Como Vajrayogini, ela é retratada como vermelha e em chamas, em postura de dança, segurando em suas mãos a emblemática faca em forma de gancho e a taça de amrita, representando juntas a união da felicidade e do vazio. Seus ornamentos de ossos e joias são semelhantes aos de Vajrayogini, mas ela não segura o cajado do tridente khatvanga. Em mãos adicionais, ela desenha um arco enfeitado com flores e uma flecha e segura outras armas que indicam sua identidade única. Ela atira flechas em suas vítimas para infectá-las com paixão, subjugando assim o pensamento discursivo; com o gancho na mão direita inferior, ela puxa o praticante para perto; o laço em sua mão esquerda inferior ata a paixão do praticante, transformando-a em sabedoria. Ela dança sobre o cadáver do ego, significando sua atividade altruísta. (Simmer Brown, 2001: 146)

Na Índia, e também no Tibete, existe uma longa tradição do que pode ser chamado de "mediunidade". De acordo com a natureza e características dessas atividades, preferimos chamá-la aqui de “possessão espiritual”. Nessas práticas, a pessoa atua como um recipiente para o espírito. O espírito pode ser um ancestral, um guardião, um demônio, um espírito da natureza ou uma divindade. Uma das divindades mais requisitadas para este tipo de trabalho é Kurukulla devido às suas características e à longa tradição mágica que a liga ao exorcismo, cura e feitiçaria. Muitas pessoas acreditam que chamar e trabalhar com um ser demoníaco as faria obter resultados mais rápidos; mas na maioria das vezes isso é uma ilusão. Se examinarmos mais de perto o folclore tibetano, podemos ver que o sucesso em uma operação mágica depende do nosso nível de compreensão sobre a divindade e que, às vezes, um ser demoníaco nada mais é do que a manifestação de um certo ser totalmente iluminado. O conceito ocidental de demônio não existia no antigo Tibete e ainda hoje o conceito de demônio entre as crenças orientais é bem diferente das ocidentais. Eles têm uma grande variedade de espíritos com atribuições diferentes. Portanto, existem pessoas que dedicaram suas vidas ao trabalho com os espíritos e desenvolveram um forte contato e conhecimento do mundo espiritual para compreendê-los.


O estudioso Vincent Bellezza diz:


Em outros locais ou aldeias do Tibete e do Nepal os “espíritos médiuns”, como expressa Belleza, têm nomes diferentes. Por exemplo, lha-kha significa “boca de deus” e eles executam basicamente um trabalho oracular. Lhadzin significa “possuído por Deus” e, neste caso, seu trabalho está mais relacionado a rituais de cura ou exorcismo. Também encontramos o lha-zhon, que significa “dominado por deus”. E a palavra que eles usam para aqueles que são afetados ou sofrem de possessão demoníaca é 'dre´dzin. (Vincent Bellezza, 1997: 4)

Geralmente, todo ritual ou possessão espiritual começa com a invocação de Padmasambhava, como um guia e protetor, como o grande subjugador, a fim de assegurar o sucesso da operação mágica. Depois disso, muitas divindades são invocadas por meio de orações e oferendas. Eles também prestam homenagem ao guardião das seis direções e aos guardiões dos Elementos. A divindade feminina mais invocada é a deusa Tara em suas diferentes manifestações, especialmente na vermelha. Existem rituais muito específicos, direcionados a subjugações e exorcismos nos quais o “médium” clama especificamente por Kurukulla. Mas esses rituais são muito perigosos, não apenas por causa da natureza da divindade, mas também por causa dos espíritos que podem estar envolvidos. A pessoa que pode servir como um recipiente de Kurukulla deve ser capaz de lidar com um tipo de energia muito forte e especial, deve ser muito bem treinada, autoconfiante, capaz de focar a mente para superar os obstáculos e toda a exibição mágica que acontecerá. É necessária uma grande habilidade em meditação.


Mas, em alguns casos, o que podemos chamar de mediunidade não é apenas uma prática em que o corpo atua como um recipiente para o espírito, como na visão kardecista, mas também é uma espécie de união transcendental. A divindade se introduz no corpo do praticante, como uma espécie de união erótica onde emoções como paixão, excitação, luxúria são absorvidas em uma dança erótica que termina na transmutação delas em sabedoria primordial.


Kurukulla é uma divindade antiga, ela não é humana e nunca foi, mas, como um ser totalmente iluminado, tudo é acessível a ela e seu conhecimento e compreensão são absolutos. Muitas práticas de Kurukulla faziam parte de rituais muito específicos em alguns mosteiros budistas, mas começaram a ser deixadas de lado por causa da natureza da divindade. No entanto, muitos médiuns ou pessoas que podem ser chamadas de xamãs, que afirmam serem budistas ou seguidores da tradição Bon-po, ainda realizam esses rituais antigos, trabalhando com Kurukulla em um estilo "xamânico", e muitas vezes são a alternativa quando um Lama não pode resolver um problema espiritual.


Trabalhar com Kurukulla inclui as duas fases que mencionamos antes: geração e conclusão. A fase de geração pode ser dividida em muitas etapas de acordo com a escola que estamos seguindo ou, se formos praticantes solitários, de acordo com nossa própria experiência e compreensão da experiência. O caminho tântrico tem uma abordagem muito complexa, que não deve ser tomada ligeiramente. Ele nos confronta com nosso ambiente e com a grande quantidade de crenças que herdamos da nossa cultura, dos nossos ancestrais e de nossos semelhantes. Abrir nossa mente para novas experiências é nos abrir para uma nova maneira de lidar com nossa própria vida. O caminho tântrico não é algo que nos isola do mundo, mas uma forma de lidar com uma realidade cheia de obstáculos e que se apresenta como extremamente desafiante para nós. O caminho tântrico não é um caminho de renúncia, mas um caminho de viver e experimentar nossa própria realidade aqui e agora.


A própria Kurukulla representa todos os estágios pelos quais um praticante passa. Ela representa todas as dificuldades, todas as nossas lutas cotidianas contra nós mesmos e contra o que vivenciamos como realidade, mas ela é a transcendência de tudo isso. Ela é a irada e a pacífica, é a mulher lasciva que magnetiza todas as aparências com a sua beleza, mas é também a mãe acolhedora, a salvadora. Ela é nosso espelho e nossa prova de que mesmo experimentando o pior de nós mesmos, mesmo quando estamos cheios de ódio e ressentimento, a verdadeira essência de nossa mente, nosso ser real, está sempre presente e podemos realizá-la em um piscar de olhos.




(1) Yidam é mais ou menos o mesmo que "divindade tutelar" ou "divindade meditativa". Posteriormente, é considerado a manifestação da mente iluminada. Como representa a própria natureza do praticante, bem como suas necessidades, o yidam pode ser pacífico, colérico ou nenhum dos dois. O praticante geralmente descobre seu yidam durante suas práticas de meditação ou por meio de outras manifestações durante sua vida diária.

(2) O termo "dakini" pode ser traduzido como "viajante espacial". O termo equivalente em tibetano é mkha'gro ma. A dakini é uma mensageira e também uma facilitadora. Entre a tradição hindu, elas eram habitantes de cemitérios, cavernas e cemitérios a serviço da Deusa Kali. Elas eram considerados seres malévolos de aparência colérica e propósitos malignos. Com a introdução desses espíritos nas doutrinas budistas, eles passaram a ser vinculados à atividade iluminada e à sabedoria. Eles são os portadores das chaves das mais altas instruções.

(3) Yeshe Tsogyal foi uma das consortes e a discípula de Padmasambhava mais importante. Ela era uma princesa tibetana. Na Escola Nyigma ela é reconhecida como uma mulher Buda. Ela pode ser considerada uma dakini e um yidam e por causa de suas grandes realizações ela é considerada um ser totalmente iluminado.

(4) O culto da Deusa Vajrayogini apareceu na Índia entre os séculos 10 e 12 aproximadamente. Seu nome significa algo como "a abençoada". Ela é a personificação da iluminação e por esta razão é considerada uma mulher Buda. A essência de Vajrayogini é paixão; ela transforma a paixão selvagem em sabedoria. Ela geralmente é retratada em postura de dança, com uma taça de crânio com sangue menstrual e uma faca de lâmina crescente na outra mão. Como chefe das dakinis, ela representa a transcendência do ego.


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